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Texto de Maria Daniela (RENFA-PE) e Apollo Arantes (MOVIHT-PE)

 
 
O Brasil, por anos seguidos, é o país que mais mata pessoas trans no mundo, sendo 97,7% das vítimas do gênero feminino, 82% pessoas pretas, e 59,2% entre 15 e 29 anos. Tendo como os 13 anos, a idade média em que mulheres trans e travestis são expulsas de casa pela família, excluídas violentamente do meio escolar e do mercado de trabalho, concentrando 90% desta população na prostituição. Verifica-se ainda que, justamente entre as profissionais do sexo, mais expostas a violência direta, concentra-se 67% dos assassinatos de toda população trans. Destas mortes violentas, 64% ocorrem nas ruas, sendo 80% do total, com requintes muitas vezes bizarros de brutal crueldade (Dossiê ANTRA 2019). No primeiro bimestre de 2020, houve um aumento de 100% do número de assassinatos em relação ao bimestre anterior (NOV-DEZ/2019), e 90% em relação ao mesmo período do ano anterior (Boletim 2/2020 ANTRA). O apagamento histórico das identidades transmasculinas resulta na falta de um diagnóstico preciso da mortalidade desses corpos, porém a ANTRA (Boletim 2019 ANTRA) diagnosticou que 85,7% da população transmasculina já pensou ou tentou cometer suicídio. A ausência de expectativa de vida, agressões familiares, a incidência de violências sexuais e estupros corretivos são parte das motivações que levam essa população a ter esse índice tão alto.
A onda de conservadorismo ultra liberal crescente mundialmente e presente no Brasil, que tem como principais agentes o fundamentalismo cristão e, mais recentemente, a ascensão da extrema direita, desprende esforços no combate e retirada de direitos conquistados dos recortes vulnerabilizados. Esta guerra se caracteriza pela desinformação (as ditas “fake news”), e os discursos de ódio, direcionados, em especial, a população trans.
Com a pandemia, as diferenças sociais foram escancaradas e, para alguns segmentos sociais vulnerabilizados, potencializadas. Mulheres trans e travestis, com baixa escolaridade, historicamente excluídas do mercado de trabalho, profissionais do sexo empurradas desde sempre para a prostituição, vítimas ainda do tráfico de drogas e pessoas, e sem conseguir acesso ao crédito emergencial, não têm alternativa senão permanecerem nas ruas, nas madrugadas, expostas à violência crescente, e ao vírus epidemiológico. A convivência obrigatória em ambientes familiares foi fortalecida pela pandemia e assim colocou em extrema vulnerabilidade pessoas trans que ainda convivem com seus familiares, mas que não tem boa relação, esse é estado de alerta gigantesco para a população transmasculina, tendo em vista o alto grau de pensamento suicida que essa população apresenta.
Durante o ano de 2020 (01 de janeiro a 31 de agosto), segundo Boletim 4/2020 ANTRA, verificou-se um aumento de 70% nos números de assassinatos de pessoas trans em relação ao mesmo período de 2019, tendo superado a marca deste ano inteiro apenas nos primeiros 8 meses do ano vigente. Todas as vítimas expressavam o gênero feminino. Ainda, a violência doméstica aumentou em 45% para a população trans, que devido à quarentena, precisa ficar em isolamento domiciliar com seus agressores, e com a intolerância familiar.
Diante de todo este quadro de violações de direitos e violência, em apenas 2/3 do ano, 2020 já demonstra ser o ano mais violento desde o início dos registros da violência transfóbica pela ANTRA a partir de 2017. Ainda assim, o governo federal se nega a criar políticas públicas para o enfrentamento à transfobia durante a pandemia de COVID-19, tal como buscar a inclusão social desta população historicamente vulnerabilizada. Calcado em sua necropolítica governamental, de genocídio e higienização social, invisibiliza e ignora a população trans, negando-lhes a cidadania, a humanidade, o direito de existir, legitimando e expondo esta população a todo tipo de violência, desumanização, e transfeminicídio.
É neste sentido que a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas/RENFA, somando esforços no enfrentamento à transfobia, vem provocar a sociedade e todo o CIStema, no sentido de conscientização da humanidade e reconhecimento dos direitos desta população. Queremos chamar a atenção para a importância de apoiar, e dar visibilidade e respeito às pessoas que, assim como todes seres humanes, TAMBÉM SÃO HUMANES E POSSUEM DIREITOS. VIDAS TRANS IMPORTAM!!!
 

 

Assista a live com Dandara Rudsan (RENFA-PA), Symmy Larrat (ABGLT),

Yudi Santos (MOVIHT-PE) e Maria Daniela (RENFA-PE/AMOTRANS-PE):

 

 

Enfrentamento à transfobia durante a pandemia

07/01/2021
Logotipo RENFA - Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas desenhado como uma etiqueta na cor verde com efeito amassado